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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

TEXTO SEMANAL: Crônica do Amor

Arnaldo Jabor
Olá pessoal, o texto veio meio que atrasado mais veio, hoje trouxe uma crônica desse gênio, Arnaldo Jabor, onde ele retrata os amores modernos e sem ambição, espero que apreciem, boa leitura!
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Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. Verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu duzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de Rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina natal e ela detesta o ano novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LCD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despacha-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você se derrete feito manteiga. Ele toca gaita, adora animais e escreve poemas.
Por que você ama este cara?
Não pergunte para mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica tem o seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de champo e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo bancário. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no per de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, porque está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu inteligente + você bonita = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível.
Honesto existe aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e bons país de famílias, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingencia maior de quem precisa.

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