![]() |
| Imagem ilustrativa |
Criada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, por jovens músicos de classe média, a bossa nova nada mais era do que uma nova maneira de tratar o samba. Mas que maneira: a nova batida, presente no violão de João Gilberto, no piano de João Donato e Tom Jobim e na flexão vocal de Johnny Alf, consubstanciava a fusão entre técnicas típicas da música no Brasil (como síncopas e jogos de tempo entre o solista e acompanhamento) com influências do Jazz (em especial o estilo de cantar cool jazz, tão adaptável à voz íntima e emotiva de João Gilberto, e o acompanhamento de piano, baixo e bateria, ao qual se juntavam as harmonias batidas em violão dissonante), propondo a integração entre melodias e ritmo, valorizadas pelas letras depuradas e intrigantes.
Donato e Alf não foram aos EUA mas Jobim e Gilberto estavam lá. Ainda assim, aquele "debut" nova iorquino da bossa nova por pouco não virou um trem da alegria para músicos mais ou menos obscuro. Acontece que o show se tornara uma iniciativa oficial do Itamaraty para promover a música brasileira nos EUA - João Gilberto e Jobim acabaram procedidos por artistas que nada tinham a ver com a bossa nova. Entre os mitos que cercam o show do Carnegie Hall, um é de que a bossa nova foi descoberta naquela noite. Não é verdade: desafinado, sua canção símbolo, havia vendido 1 milhão de cópias nos EUA naquele ano. Por isso, Sidney, Frey, presidente da gravadora Audio-fidelity, veio buscar gente para tocar em Nova York e o Itamaraty quis patrocinar a noitada.
"O que é bossa nova? Bossa nova é mais a solidão de uma rua de Ipanema do que a agitação comercial de Copa Cabana. Bossa Nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão, mais um recado do que uma mensagem. Bossa nova é o canto puro solitário de João Gilberto eternamente trancado em seu apartamento, buscando uma harmonia cada vez mais estremado e simples nas cordas de seu violão e uma emissão cada vez mais perfeita para os sons e palavras de sua canção. Bossa nova é o novo segredo da mocidade".
Vinícius de Morais
Outro mito a respeito da noite da bossa nova no Carnegie Hall é o de que o show foi um fracasso. Embora o inglês de vários artistas brasileiros fossem macarrônicos, figurantes fizessem malabarismos com o pandeiros, Bola sete tocasse violão nas costas e Roberto Menescal e até Tom Jobim esquecessem a letra das canções, João Gilberto dos Santos e o próprio Jobim arrasaram.
Por que, então, as notícias publicadas no Brasil falavam em vexame? A história é elucidada por Ruy Castro no livro "chega de saudade", publicado em 1990. Tudo começou com a reportagem publicada por o Cruzeiro, em dezembro de 1962, com o título "Bossa nova desafinou nos EUA". O texto tinhoso, assinado por José Ramos Tinhorão, foi chamado de "mediúnico", já que seu autor não fora a Nova York. Como pudera então descrever o que passava no palco e no camarim? Fora informado por free lancer da revista, o cubano Orlando Suero. E o informante de Suero era o compositor Sergio Ricardo, que literalmente se escalara para tocar naquela noite.
O episódio seria premonitório do racha que logo dividiria a bossa nova em "direita" e "esquerda", em "participantes" e "alienados". Após o golpe de 64, Geraldo Vandré dissera: "temos que fazer música "participante". Os militares estão prendendo e torturando. A música tem de servir para alertar o povo" ("quem alerta é corneta de regimento" responderia Roberto Menescal). Sergio Ricardo seguiria a linha proposta por Vandré. Mas o disco que de fato rachou a bossa nova foi "opinião de Nara", de Nara Leão, base do show "opinião", de Oduvaldo Viana Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, o qual, além de ser um dos pontos altos do teatro Opinião, foi a primeira reação artística da esquerda ao golpe, inaugurando a "ideologia da pobreza" que tanto importunaria a cultura brasileira. Mas os gênios da bossa nova nem deram bola e seguiram seu caminho - não deixando de ser menos libertários e ousados por causa disso. Na verdade, sua música permanece eterna enquanto que as "canções de protestos" daquela época soam enfadonhamente datadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário