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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bossa Nova - 1962

Imagem ilustrativa
Chovia a cântaros em Nova York na noite de 21 de novembro de 1962. Ainda assim, mais de 3 mil pessoas lotavam o Carnegie, em Manhattan. Embora boa parte da plateia fosse de brasileiros, nas primeiras filas sentavam gênios do Jazz como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Herbie Manne até Tony Bennet. Estavam todos ali para ouvir um novo estilo musical - a bossa nova - e as estrelas que o tinham inventado. Na verdade, embora viesse a se tornar quase um braço paralelo do Jazz dos anos 60, a bossa nova devia muito ao estilo que iria influenciar.

Criada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, por jovens músicos de classe média, a bossa nova nada mais era do que uma nova maneira de tratar o samba. Mas que maneira: a nova batida, presente no violão de João Gilberto, no piano de João Donato e Tom Jobim e na flexão vocal de Johnny Alf, consubstanciava a fusão entre técnicas típicas da música no Brasil (como síncopas e jogos de tempo entre o solista e acompanhamento) com influências do Jazz (em especial o estilo de cantar cool jazz, tão adaptável à voz íntima e emotiva de João Gilberto, e o acompanhamento de piano, baixo e bateria, ao qual se juntavam as harmonias batidas em violão dissonante), propondo a integração entre melodias e ritmo, valorizadas pelas letras depuradas e intrigantes.

Donato e Alf não foram aos EUA mas Jobim e Gilberto estavam lá. Ainda assim, aquele "debut" nova iorquino da bossa nova por pouco não virou um trem da alegria para músicos mais ou menos obscuro. Acontece que o show se tornara uma iniciativa oficial do Itamaraty para promover a música brasileira nos EUA - João Gilberto e Jobim acabaram procedidos por artistas que nada tinham a ver com a bossa nova. Entre os mitos que cercam o show do Carnegie Hall, um é de que a bossa nova foi descoberta naquela noite. Não é verdade: desafinado, sua canção símbolo, havia vendido 1 milhão de cópias nos EUA naquele ano. Por isso, Sidney, Frey, presidente da gravadora Audio-fidelity, veio buscar gente para tocar em Nova York e o Itamaraty quis patrocinar a noitada.

"O que é bossa nova? Bossa nova é mais a solidão de uma rua de Ipanema do que a agitação comercial de Copa Cabana. Bossa Nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão, mais um recado do que uma mensagem. Bossa nova é o canto puro solitário de João Gilberto eternamente trancado em seu apartamento, buscando uma harmonia cada vez mais estremado e simples nas cordas de seu violão e uma emissão cada vez mais perfeita para os sons e palavras de sua canção. Bossa nova é o novo segredo da mocidade".
Vinícius de Morais

Outro mito a respeito da noite da bossa nova no Carnegie Hall é o de que o show foi um fracasso. Embora o inglês de vários artistas brasileiros fossem macarrônicos, figurantes fizessem malabarismos com o pandeiros, Bola sete tocasse violão nas costas e Roberto Menescal e até Tom Jobim esquecessem a letra das canções, João Gilberto dos Santos e o próprio Jobim arrasaram.

Por que, então, as notícias publicadas no Brasil falavam em vexame? A história é elucidada por Ruy Castro no livro "chega de saudade", publicado em 1990. Tudo começou com a reportagem publicada por o Cruzeiro, em dezembro de 1962, com o título "Bossa nova desafinou nos EUA". O texto tinhoso, assinado por José Ramos Tinhorão, foi chamado de "mediúnico", já que seu autor não fora a Nova York. Como pudera então descrever o que passava no palco e no camarim? Fora informado por free lancer da revista, o cubano Orlando Suero. E o informante de Suero era o compositor Sergio Ricardo, que literalmente se escalara para tocar naquela noite. 

O episódio seria premonitório do racha que logo dividiria a bossa nova em "direita" e "esquerda", em "participantes" e "alienados". Após o golpe de 64, Geraldo Vandré dissera: "temos que fazer música "participante". Os militares estão prendendo e torturando. A música tem de servir para alertar o povo" ("quem alerta é corneta de regimento" responderia Roberto Menescal). Sergio Ricardo seguiria a linha proposta por Vandré. Mas o disco que de fato rachou a bossa nova foi "opinião de Nara", de Nara Leão, base do show "opinião", de Oduvaldo Viana Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, o qual, além de ser um dos pontos altos do teatro Opinião, foi a primeira reação artística da esquerda ao golpe, inaugurando a "ideologia da pobreza" que tanto importunaria a cultura brasileira. Mas os gênios da bossa nova nem deram bola e seguiram seu caminho - não deixando de ser menos libertários e ousados por causa disso. Na verdade, sua música permanece eterna enquanto que as "canções de protestos" daquela época soam enfadonhamente datadas.



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