A História de maneira democrática e ao alcance de todos

domingo, 2 de agosto de 2015

A cultura nos anos 80 - Que país é esse?

Se tantas vezes o Brasil parece uma piada sem graça, por que não fazer de sua arte um chiste mordaz? Foi o espírito da irreverência macunaímica, típica do país tropical abençoado por Deus, que a cultura brasileira - em fase definitivamente pop - deu boas-vindas aos anos 80. Descendente virtual do grupo teatral mais dissonante do país - o Asdrúbral trouxe o trombone, que desde 1974 mixou música e zombaria nos palcos da vida -, o grupo musical Blitz serviu chope e batata frita na mesa dos brasileiros a partir de setembro de 1982, com o lançamento do álbum As "Aventuras da Blitz". O humor da banda liderada por Evandro Mesquita, ex-integrante do Asdrúbal, foi responsável pela explosão do rock no Brasil. Quinze anos depois, o deboche da Blitz (que tinha nos vocais a futura diva da dance music nacional, Fernanda Abreu) seria o tempero utilizado pelo maior fenômeno da indústria fonográfica no país: os mamonas assassinas, que venderam 2 milhões de cópias de seu disco. Também nos anos 90, e com o mesmo bom humor, uma nova safra de bandas - Chico Science, Raimundos e Skank - redefiniria os caminhos do rock "BRAZUCA", dando-lhe, enfim, um sotaque nacional.

Grupo musical Blitz
 Depois que a jovem guarda envelhecera e a MPB virara a principal voz musical da nação ao longo da década de 70, o rock só tinha conseguido voltar às paradas em 1980, com humor descompromissado e carioca da Gang 90, a precursora da "New wave" nacional, fundada por Júlio Barroso, poeta ligado ao movimento "udigrude" dos anos 70. A Blitz aproveitou a mesma onda e a propagou em escala muito maior com o sucesso "Você não soube me amar". Mas foi com sotaque anglo-saxão e letras politizadas que o rock se estabeleceu de vez entre a moçada tupiniquim e acabou se tornando o fato cultural mais significativo dos anos 80 no Brasil.

Tudo começou com roqueiros que moravam em Brasília - a cidade na qual o pode está tão próximo e tão longe; o reino do tédio para rebeldes com causa. Foi nas proximidades do Planalto que o Aborto Elétrico, grupo do vocalista Renato Russo, fez seu primeiro show, em janeiro de 1980. Cinco anos depois, a Legião Urbana do mesmo Renato Russo lançaria seu primeiro disco, batizaria sua geração - Coca-cola - e começaria a percorrer uma estrada de sucessos que só acabou em 1996, com a morte de seu fundador. Renato Manfredi Junior, o Renato Russo, foi o mais carismático letrista e vocalista de seu tempo. Divide tal posto e tal glória com o carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, líder da banda, Barão Vermelho. Ambos injetaram poesia no rock. Ambos percorreram a dos excessos em busca do palácio da sabedoria. Ambos fizeram o Brasil mostrar a sua cara com questões simples e diretas, como o rock ser e fazer: afinal "Que país e este?". Ambos morreram no auge da fama, como convém a roqueiros rebeldes. Ambos vitimados pela Aids, o mal do fim do século que os dois cantaram.

Vocalista: Renato Russo
 Brincadeira no começo da década, o rock virou coisa séria quando passou a render milhões de cruzados: a adoção do plano cruzado, em 1986, deu o impulso definitivo à indústria do disco no Brasil. Embalado pelo sabor de sucesso de suas Louras Geladas, o RPM se tornaria o maior fenômeno comercial da geração Coca-cola. O rock nacional emplacou um produto atrás do outro: Titãs, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Lobão. Até a maior estrela infantil do país em todos os tempos, a "rainha dos baixinhos" Xuxa, que estreou na TV Globo em junho de 1986, vendeu LPs aos milhões e desbancou Roberto Carlos do posto de maior vendedor de discos no país.

Se nos anos 80 o Brasil da Blitz, do Barão e da Legião e de seus amigos de Brasília, Paralamas do sucesso foi mais roqueiro que qualquer outra coisa, isso se deu também pela deficiência de suas demais expressões artísticas, que ou não aproveitaram as benesses do cruzado ou mergulharam no mais puro comercialismo.

O cinema começou na década de 80 com grande perda: Glauber Rocha morreu em agosto de 1982. O profeta que criara a estética da fome não viveria para ver sua definição adquirir um sentido mais perverso: em 1987 a Embrafilme, criada pelo governo para subsidiar produções nacionais, foi desativada e o cinema nacional ficou à míngua. A era Collor deixaria as coisas ainda piores: as produtoras entraram no vermelho e os anos passaram em branco. O teatro, com exceções com as peças de Antunes Filho (1978 dirigia Macunaína), virou um desfile de estrelas globais. As artes plásticas se enclausuravam no circuito das galerias, leilões e vernissages. A indústria editorial faturou muito com o cruzado, mas, embora a década das letras tenha começado com o best seller "Feliz ano velho", de Marcelo Rubens Paiva, lançado em 1982, a literatura se manteve opaca. Em um país que costuma se entender melhor pela piada, os gozadores de plantão prosperaram. Em 1988, ano da morte de Chacrinha, estreou "TV Pirata", programa que faziam parte os atores Regina Casé e Luís Fernando Guimarães, do Asdrúbal. Seu humor escrachado abriu caminho para o sucesso da turma do Casseta e planeta, grupo de humoristas furiosos que em 1997 estarrecia a nação ao fazer uma das mais alarmantes denúncias da história dos escândalos políticos do país: "Deputados comprados vieram com defeito!" No Brasil, só dói quando respiramos. O resto todo é muito engraçado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para fãs do esporte @newgenerationoficial